Ainda meio engasgado...
como Fernão Capelo Gaivota em sua ânsia de voar...
gritei baixinho, passarinho, e a dor que me incomodava passou.
Era como se minha dor de dente de infância tivesse sido benzida,
estufei o magro peito e pela primeira vez entrei no rio,
mas quão tolo eu fui.
Aquela paisagem de minha infância não era para ser mudada,
ao sair de lá, Heráclito gritei, nem o mesmo rio e muito menos o mesmo homem,
deixei então de tocar no que não queria que mudasse,
preservei as pedras, as macaúbas, as maritacas, a casa da mãe, a horta.
fui no cemitério e pisei na tumba do pai para ver se algo mudava na dor que eu sentia, Heráclito errou, pois a dor continuou minha, e tão crua, e tão a mesma, que quase surtei em queda livre.
Fui ao trabalho todos os dias, me distribui aos que me acompanhavam,
voltei para casa, sentei-me ao chão, mandei o cachorro pra fora e sentei-me ao lado dele para me sentir assim, em pleno voo.
Com um cafezinho em um copo americano fiquei sorrindo imaginando como o pensador do movimento pode ter errado tão profundamente,
Olhei para o fundo do copo, aproveitei um restinho amargo e olhei para o céu, lá onde as ventanias não cessam, onde o movimento é constante, onde tudo orbita ao redor da maior massa e vi que de novo o filósofo estava certo, a matéria que fez a palavra se fazer carne, agora era aquela força da vida que vi no céu, na terra e no ar. Heráclito continuou superpoderoso em meus pensamentos e eu me percebi impotente diante da vida do cosmo e das certas palavras de Heráclito, TUDO FLUI (Panta Rei)
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